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(stoa = pórtico). Suas obras, com exceção de alguns fragmentos, se perderam. Podemos distinguir três períodos no estoicismo: o primeiro, com representantes da época clássica grega; o segundo, que teve o grande mérito de introduzir o estoicismo em Roma e o terceiro, que se desenvolveu em Roma sob o Império. 1) O primeiro período (estoicismo antigo) desenvolveu-se no séc. III a.C., com Zenão, de Cício, Cleanto, Crisipo e outros. Dos dois períodos, foi nesse em que se desenvolveu o sistema estóico mais completo, preocupando-se seus representantes com a lógica, a física, a metafísica e a moral. 2) No segundo período (estoicismo médio), o pensamento estóico entrou em contato com o espírito romano, com que combinou muito bem e se amalgamou. Panécio de Rodes (180 a.C. - 110 a.C.) e Possidônio (135 a.C. - 51a.C.) representam essencialmente o médio estoicismo. 3) O terceiro período (novo estoicismo ou estoicismo imperial) está ligado a três grandes nomes: Sêneca (nascido no início da era cristã e morto em 65), Epicteto (50 - 125 ou 130) e Marco Aurélio (121 - 180, imperador em 161). Dos pensadores dos dois primeiros períodos, só temos citações de outros autores e resumos. Mas, de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, temos obras conservadas no essencial; foram eles os grandes propagadores do estoicismo no Ocidente. Os filósofos estóicos foram os primeiros a considerar a filosofia um sistema, isto é, um todo, ensinando que a sua divisão em partes tem finalidade puramente didática. No que diz respeito à física, descreveram um princípio que chamaram de pneuma (sopro vital que Heráclito atribuiu ao fogo), que está em todo o universo, no céu e na terra; trata-se de uma espécie de fluido que age por tensão (tonus), como se fosse um campo de força, mantendo unidas as partes do universo, impedindo, assim, que elas se dispersem no vazio; mantém também a individualidade de cada ser como se fosse a sua alma. É o Logos, a alma do mundo, que é corpórea e penetra toda matéria. O estoicismo é a filosofia da imanência: o pneuma, um princípio imanente de organização, liga entre si os acontecimentos do universo - o mundo não é governado por um Deus, mas é, ele mesmo, Deus e o destino. Deus não é um Deus pessoal; é o Deus cósmico que impregna toda a natureza e dela não se distingue. Estamos, portanto, face a uma doutrina panteísta - só o universo é real, Deus está em cada uma de suas partes e é a soma de tudo aquilo que existe. Se o mundo é regulado por uma ordem divina e providencial, ele tem que ser perfeito, nada pode acontecer contra a razão: as doenças, deformidades, a morte são males necessários à própria existência do bem (um contrário não existiria sem o outro: Deus harmonizou no mundo todos os bens com todos os males de modo que nasça daí a razão eterna de tudo Cleantes) ; na verdade, os males fazem parte da ordem universal, são meros detalhes de um conjunto e nós, muitas vezes, não conseguimos perceber sua coerência. Se tudo está pré-determinado por Deus, a liberdade humana está comprometida; só resta ao homem aceitar a necessidade, conformar sua vontade ao destino, ao que já está escrito, ao imutável. Do que foi dito, decorre o fundamento da moral estóica: a vontade do homem deve respeitar a ordem divina e viver de acordo com ela. O ser humano deve agir de acordo consigo mesmo, ser ele mesmo, fazer agir sua natureza racional - nela, ele ama e respeita o Logos. A virtude consiste na aceitação da lei moral, no concordar com a natureza e não se rebelar contra ela, de acordo com a simpatia universal - este é o bem supremo, viver de acordo com a razão vencendo todas as paixões e sendo o dono de si mesmo.É querer o que acontece e não que aconteça o que se quer. Se não puder viver conforme o ideal da virtude, o sábio deverá praticar o suicídio. Mas, perguntamos agora, será que, às vezes, essa sabedoria universal, esse Logos a que se deve aderir cegamente, nunca entra em confronto com as convenções sociais e os deveres políticos? Sabemos como, em Roma, o próprio Sêneca, ministro de Nero, sofreu crises de consciência ao ver se contraporem sua filosofia de vida e seus deveres políticos. Para os estóicos, os homens são sábios ou loucos: sábios, se livres das paixões; loucos, se dominados por elas. A felicidade nada mais é que um ato de fé na racionalidade oculta do universo, isto é, uma apatia, que permite ao sábio ser feliz mesmo nos sofrimentos, mesmo no que se chama de infelicidade, porque ele já se tornou indiferente a tudo o que não pode ser alterado e não depende da vontade humana. Como vemos, são bem diferentes dos epicuristas, que pregam a imediatidade do prazer numa existência pacífica, sem medo da morte e da dor e livre de dependências externas a seu próprio ser. Muitos tentaram aproximar o estoicismo do cristianismo, porque os estóicos negaram a diferença entre helenos e bárbaros, ensinaram a injustiça da escravidão e apregoaram a benevolência universal entre os homens, todos cidadãos de uma mesma e única cidade universal (cosmopolitismo), sem fronteiras ou nacionalidades, instrumentos da mesma razão divina. Acreditam, no entanto, ser possível alcançar a virtude e a perfeição máximas com suas forças racionais (auto-suficiência) chegando a se fazerem deuses. Para o cristianismo, embora o homem deva se aperfeiçoar, é Deus que o ajuda, através da providência, a chegar ao próprio Deus. O estoicismo faz a moral ser totalmente independente da religião, negando que o homem dependa de Deus. Ensinando que devemos desenvolver a aceitação total da natureza, involuntariamente, pregam a aceitação do mundo tal qual está: não é preciso libertar os escravos, porque só se é escravo das próprias paixões; para que libertar os homens, se eles já são livres ao nascer e têm a liberdade de morrer quando quiserem? Por que se preocupar com a aplicação da justiça, se nesse universo racional ela já existe e basta discerní-la? Como podemos ver, desenvolveram idéias baseadas na teoria do Direito Natural, já trabalhada pelos sofistas e que tanto influenciaram a ciência jurídica romana. A exaltação teórica da virtude e a vida virtuosa de muitos estóicos contribuíram para conter a corrupção em alguns países da sociedade antiga e, ainda hoje, suas obras são bastante úteis porque contêm boas regras sobre o autodomínio e o comportamento social. O sistema estóico persistiu no pensamento humano, recrudescendo nos séculos XVI e XVII, quando exerceu poderosa influência. Epicteto Se o homem de bem pudesse prever o futuro, ele próprio cooperaria para sua doença, para a morte, para a mutilação, porque teria consciência que, em virtude da ordem do mundo, essa tarefa lhe é determinada. Não desejes que as coisas aconteçam segundo tua vontade, mas deseja que aconteçam como estão acontecendo e serás feliz. ... Não desejes ser general, ou senador, ou cônsul, mas deseja ser livre; e o único caminho para isso consiste no desprezo das coisas que não estão ao nosso alcance. É sinal de falta de espírito gastar muito tempo com coisas relacionadas com o corpo, assim como demorar no comer, no beber e em outras funções animalescas. Quem realmente se submete ao destino, é julgado Sábio entre os homens e conhece as leis do céu. Sê silencioso a maior parte do tempo, ou fala só o necessário e em poucas palavras. Marco Aurélio Em todos os teus atos, ditos e pensamentos, procede como se houvesses de deixar a vida dentro em pouco. Da vida humana a duração é um ponto; a substância, fluida; a sensação, apagada; a composição de todo corpo, putrescível; a alma, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta. Em suma, tudo que é do corpo é um rio; o que é da alma, sonho e névoa; a vida, uma guerra, um desterro; a fama póstuma, olvido. O que, pois, pode servir-nos de guia? Só e única, a Filosofia. Logo estarás morto e ainda e ainda não és simples, nem traquilo, nem seguro de não receber danos de fora, nem bondoso para com todos, nem pões a sabedoria apenas na prática da justiça. Não te limites a respirar com os outros o ar circundante, mas, doravante, pensa em conjunto com a inteligência que tudo envolve; a força intelectiva está tão derramada em toda parte e tão distribuída a quem pode sorvê-la quanto o ar a quem o pode aspirar. Muitas vezes comete injustiça quem omite, não apenas quem faz alguma coisa. Admira-me muitas vezes como cada um, embora ame a si mesmo acima de todos, dá menos valor à sua opinião a seu respeito que à dos outros. Realizei algo para o bem comum? Então tirei proveito. Que sempre tenhas em mente esse pensamento e jamais o abandones. |
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