Entry: brilho eterno de uma mente sem lembranças 8.1.08





eu prometi não fazer nenhum comentário, guardar o sentimento em um suposto esconderijo, até tudo estar tão claro.

mas eternal sunshine of spotless mind nos eleva para uma esfera em que promessas não existem, o mundo é tão real que sentimos o pulso inequívoco de reafirmar a vida em sua mais prazerosa indefinição.

raramente vi um filme tão contemporâneo, que comunicasse, com incompletude e precisão, o que sentimos e pensamos. talvez dogville, 21 gramas, lost in translation, in the mood for love e kill bill – vol. 1 sejam obras a integrar esta lista, tão breve quanto profundamente reveladora, mas em eternal sunshine… há uma completa síntese de vários elementos daquilo que vivemos.

não sabemos quem somos [e isto não é um problema]. o ocidente passou séculos e séculos [verdadeiras eternidades] a se preocupar com a busca de si mesmo, e subitamente esta questão se exauriu, evaporou. não há mais este mistério, pois o mandamento 'tornar-se aquilo que se é' nos diz tão somente: siga em frente, e não se prenda em definições. o vago e impreciso finalmente são admitidos como a última verdade, e não estamos tristes com isso.



não sabemos o que queremos. e isto nos restringe simplesmente a todas as possibilidades. ter objetivos, buscar um ideal, seguir os seus princípios, tudo isto talvez seja tão falso e inadequado que a última condição seja se resignar. saber o que não se quer é o que realmente importa.

não sabemos o que sentimos. e isto não elimina as relações afetivas, troca de sinceridades e afetos, momentos de êxtase e passionalismos. nada mais precisa estar tão claro, pois o mundo é e sempre foi assim: um pouco gratuito, um pouco eterno.

aceitar que o mundo é simultâneo, incompleto, fragmentário, orgânico, e, em todas as ocasiões, algo para se sentir, jamais compreender.

aceitar um sentimento e vivê-lo em sua mais plena intensidade.
aceitar a desilusão e vivê-la em seu mais absoluto ceticismo.

resignar-se ao ponto de admitir que todas as idéias, sentimentos e argumentos são possíveis e válidos. e que nada disso talvez seja lembrado.

o filme é mal acabado, um pouco confuso, incompleto e transitório. um pouco sujo, também. e justamente por isso, essa ambivalência primordial, expressa tudo o que somos [ou não] com tanta propriedade.

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